Cruzamentos

segunda-feira, novembro 24, 2008

Life : uma revista

Fotografia de Martha Holmes para a revista Life, 1949, identificada como "Painter Jackson Pollock (L) looking at drawings with unidentified woman"- noutro local, a identificação é mais específica: "(L-R) Jackson Pollock w. Long Island neighbor, amateur artist Mary Monteverdi, looking over her works". É difícil não pensar em Sam Marlowe, o pintor abstracto de The Trouble with Harry (Alfred Hitchcock, 1955) e na sua rural "art dealer" que acumula funções de proprietária da mercearia e de mãe do chefe da polícia.

O espólio fotográfico da extinta revista Life ([1883-]1936-2007) foi digitalizado pelo Google e oferece um enorme conjunto de imagens, com início na década de 1860 (abundante em cenas da Guerra Civil norte-americana). O "link" permanente para as imagens da Life passa a estar disponível nas barras laterais (à direita) de A Arte Moderna e dos Cruzamentos (secção "Imagens").

Fotografia de Martha Holmes, 1949, identificada como "Painter Jackson Pollock (C) visiting with guests"

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terça-feira, julho 24, 2007

Peep Show: o filme

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quarta-feira, maio 16, 2007

Peep show

Hans Bellmer (1902-1975), La Poupée (detalhe), Paris, Éditions GLM, 1936, gravura (linóleo) sobre papel rosa, 16,7 x 12,8 cm

Sobre o conjunto de obras de Hans Bellmer sob a designação Die Puppe / La Poupée, ver, sobretudo, The Wandering Libido and the Hysterical Body, de Sue Taylor, para o site do Art Institute of Chicago.

Muita informação também no Centre Pompidou, em La Révolution Surréaliste (a propósito da exposição de 2002) e nos Dossiers Pédagogiques dedicados ao surrealismo.

Na "net", a mais completa coleccção de imagens que conheço sobre a multiforme boneca encontra-se em dolls of hans bellmer - não deixar de visitar os "links", para um relacionamento com práticas contemporâneas nem sempre "artísticas" (mais "links" sobre o tema num "blog" português). Outro material fotográfico de Bellmer no International Center of Photography.

Uma série de "links" relativos a Bellmer em A vocabulary of culture.

Sobre o conceito freudiano de "estranha familiaridade" (Das Unheilmliche), ver La Révolution Surréaliste e o site La Psychanalyse. O texto integral de The Uncanny (Das Unheilmliche) está disponível em inglês. Várias obras de Sigmund Freud encontram-se em Les Classiques des Sciences Sociales, em tradução francesa.

O conto (1814) de E. T. A. Hoffmann que está na origem do texto de Freud e entre as referências geradoras da(s) boneca(s) de Bellmer, está traduzido em inglês, como The Sandman.

Hans Bellmer, fotografia de uma das versões da sua boneca

A boneca, só com os pés vestidos, jaz no chão e é olhada de cima para baixo, torcida e nua, sexo no foco, olhada pelo homem fotógrafo, em pé, vertical. As outras nádegas deste monstro único, mutante, totalmente instrumentalizado pela sexualidade, são expostas pelo espelho. Espelho terrível que impede a fuga para a sombra e o esquecimento, forçando este corpo-artefacto a exibir-se, outra vez, devolvendo-o ao nosso olhar - e tornando o acto de olhar iniludivelmente visível.


Marcel Duchamp, Etant Donnés (detalhe), 1946-1966, Philadelphia Museum of Art

A mulher nua, indecisa entre a morte e a vida (ergue o braço), o sórdido e o heróico (a luz no braço erguido), deita-se, ou foi despejada, numa paisagem bucólica, retalhada pela visão, por natureza fragmentária, que se centra no seu sexo. Espreitamos pela fissura da porta e vemos um exterior. Espreitar a mulher, espreitar para dentro, ver através de (como na perspectiva): das viscerais noivas tetradimensionais de 1912 a este corpo no chão. Sexualidade progressivamente mais óbvia, mais crua, mais sórdida.


Alfred Hitchcock, Frenzy (fotograma), 1972

A mulher nua foi despejada no sujíssimo Tamisa, que o discurso da ordem promete limpar. A água não é uma cascata ao fundo. Da indizível violação de Blackmail (1929), elidida por foras-de-campo vários, para a mulher violada, nua, morta. Sexualidade progressivamente mais óbvia, mais crua, mais sórdida.


Alfred Hitchcock, Psycho (fotograma), 1960. Ver pormenor* abaixo

A parede revela Norman e a sua relação com Marion: ele é um predador e o contentor habitado pelo fantasma da Mãe, como um mocho empalhado; Marion é a vítima da predação e um animal a retalhar pelo taxidermista, este recepcionista involuntário do vestíbulo entre a vida e a morte - e é, Marion, o objecto do desejo, a ser violado na sua privacidade sem conhecimento, como as mulheres nuas que homens devassam nos quadros. A pintura, a Arte, esconde e revela, "sublima", mas sem conseguir apagar as marcas de uma regressão às pulsões do inconsciente.


Alfred Hitchcock, Psycho (fotograma), 1960

O quadro é tirado da parede,


Alessandro Allori, Susana e os Velhos, 1561, óleo sobre tela, 202 x 117 cm, Musée Magnin, Dijon

uma qualquer (não esta, de Alessandro Allori) "Susana" atormentada pelos seus "velhos" (entre a violência e o negócio), a ser redimida pela virtude absoluta,


Alfred Hitchcock, Psycho (fotograma), 1960

O quadro ausente revela, agora sem transposição, tudo o que fora, até aí, recalcado. Buraco na parede, buraco na porta.


Alfred Hitchcock, Psycho (fotograma), 1960

Para espreitar


Alfred Hitchcock, Psycho (fotograma), 1960

o inconfessável,


Alfred Hitchcock, Psycho (fotograma - pormenor*), 1960

transposto, pela arte, para a esfera da ordem, do "alto", da moral. Nudez e pudor. Desejo e negócio.


Alfred Hitchcock, Psycho (fotograma), 1960

O buraco da parede já não transpõe: anuncia o buraco terrível do ralo da banheira que irá escoar a vida de Marion para o vazio, onde o nosso olhar não a pode mais seguir. Contracampo ontológico do buraco na parede, através do (como na perspectiva) qual o olho via: vazio absoluto, sem luz, sem visão, sem existência. Buraco na horizontalidade do fundo da banheira (conduzindo a um fundo mais fundo), visto do alto vertical da câmara de filmar.


Alfred Hitchcock, Psycho (fotograma), 1960

O buraco devolve-nos o olho: mas não o olhar. Olho morto.


Alfred Hitchcock, Psycho (fotograma), 1960

O olho vertical substitui o ralo horizontal, assim como o eixo vertical de visão é substituído pelo eixo horizontal, junto ao chão - baixo, "baixa" matéria, dejecto, lixo a limpar pelo obsessivo e cauteloso Norman. A câmara não pode senão afastar-se. Não há caminho redentor. O regresso do automóvel de Marion, no último plano do filme, não recupera nada, não repõe nada: é o regresso de um cadáver. Lixo. O lixo do que fora uma mulher em busca de redenção, do que fora juventude, do que fora riqueza (e crime: o dinheiro roubado por Marion).


Sobre o conjunto da obra de Marcel Duchamp, veja-se o divertido e informativo site Making Sense of Marcel Duchamp. Sobre Étant Donnés, consultem-se os artigos da tout-fait, Case Open and/or Unsolved: Étant Donnés, the Black Dahlia Murder, and Marcel Duchamp’s Life of Crime e Marcel Duchamp - Étant donnés: The Deconstructed Painting e veja-se uma reconstituição animada da obra no "site" Freshwidow. Sobre o Psycho, de Hitchcock, poderá recuperar-se um comentário meu no "blog" do curso A Arte Moderna.

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segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Making Sense?

Alfred Hitchcock/Saul Bass, genérico inicial de Vertigo (fotograma), 1958

Dar sentido à "Arte Moderna"? Parece-me mais interessante fazer dela um motor de interrogações. Uma vertigem, portanto.

Inicia-se, hoje, mais um semestre do curso "Cruzamentos" que convocará o cinema, a música e a arquitectura (eventualmente, a literatura e a dança) para pensar a arte contemporânea. Este ano procuraremos focar o curso na segunda metade do século XX - com incursões pelos antes e os depois.

Segundas e Quartas, entre as 21 e as 23 horas, no Ar.Co do número 18 da Rua de Santiago, em Lisboa.

Jackson Pollock (1912-1956), Reflection of the Big Dipper, 1947, Stedelijk Museum, Amsterdam

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quarta-feira, junho 21, 2006

Abstracto & Concreto

O início de dois filmes separados por 32 anos: da abstracção para o concreto, da "criação pura" para a apropriação de imagens "reais" - do universal para o particular. "Berlin" parte da imagem "real" (a "Intriga" também, se contarmos com o leão da MGM, já sobre o fundo verde do genérico e com a música de Bernard Herrmann) para a "abstracção" e, daí, outra vez para a imagem real que irá, por sua vez, ser abstractizada, tornada dificilmente reconhecível, pela velocidade e pelo cinema. A "Intriga" parte de cima para baixo, do simples para o complicado, do abstracto para o concreto, do universal para o particular, até ao indivíduo concreto apanhado nas tramas que o ultrapassam: Roger O. Thornhill (Cary Grant). A "realidade" do leão é a da ficção cinematográfica e as linhas imateriais do desenho prenunciam as "tramas" que enredarão o protagonista (e são matrizes platónicas que precedem o mundo material, bem como as direccções, cruzadas, desse Norte e Ocidente referidos no título original North by Northwest). Ambos os filmes são apresentados sem som: para uma versão sonora do genérico da Intriga Internacional procure-se no You Tube. Uma versão integral do "Berlin", visível e descarregável (download) gratuitamente, encontra-se no Internet Archive - filme também acessível no Google Video, com outras preciosidades (cliquem em "Playlist", "From user" e "Related" - e façam, sempre, as vossas buscas).

Walter Ruttmann, Berlim: Sinfonia de uma Grande Cidade (1927), sequência inicial


Alfred Hitchcock, Intriga Internacional (1959), sequência inicial

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quarta-feira, março 01, 2006

Os Cruzamentos apresentam-se

Fotograma do genérico de Saul Bass para North by Northwest / Intriga Internacional (1959), de Alfred Hitchcock

O curso "Cruzamentos" vai funcionar, neste segundo semestre do ano lectivo 2005/06, em horário nocturno, entre as 21 e as 23 horas. Funcionará, apenas, em Lisboa, na Rua de Santiago, nº 18 (junto ao Castelo de S. Jorge). Às Segundas e Quartas.

Os alunos que frequentaram a "Arte Moderna" (I) no primeiro semestre continuarão a encontrar novidades neste curso do segundo semestre. De facto, cronologicamente, o curso iniciar-se-á onde o anterior terminou: nas heranças "pós-impressionistas" sobre as quais construirão os movimentos artísticos do início do século XX, rapidamente conduzindo às "abstracções" com origens nas "famílias" expressionista (Kandinsky), cubista (Delaunay) e futurista (Balla). Metodologicamente as opções são diferentes: ainda mais temático (do que "A Arte Moderna" (I)) e "cruzando" artes figurativas com arquitectura, música e cinema - com incursões pela literatura e artes cénicas. Fugindo, sempre, à ilustração dos "movimentos" artísticos que, no século XX, procuraram estender os mesmos princípios por uma pluralidade de áreas consideradas "artísticas" (pintura, arquitectura e cinema futuristas, por exemplo). Cruzar-se-á o aparentemente díspar, em busca da cultura de uma época.

No entanto, o curso integrará também, facilmente, aqueles alunos que procuram uma iniciação teórica à cultura artística contemporânea, sem a frequência anterior de nenhum tipo de curso teórico nesta (ou noutra) área.

Este "site" está em construção e servirá, principalmente, como uma introdução aos (muitíssimos) recursos oferecidos "online", através de "links" que ocuparão a coluna da direita (veja-se o "blog" "A Arte Moderna").

Fotograma do genérico de Saul Bass para North by Northwest /Intriga Internacional (1959), de Alfred Hitchcock

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