Cruzamentos

sexta-feira, abril 09, 2010

Vanguardas russas


Recriação contemporânea da ópera Победа над Солнцем / Vitória Sobre o Sol, com libreto transracional (zaum) de Aleksei Kruchonykh, música de Mikhail Matyuchine, cenografia e figurinos de Kazimir Malievich. Estreia em 1913, no Luna Park de S. Petersburgo.

Uma rápida busca pela "internet" oferece vários exemplos de recriações, mais ou menos fiéis à versão original, da ópera Vitória Sobre o Sol, na qual aparece, pela primeira vez, o icónico e gerador quadrado negro de Malievich, antes de ser o Quadrilátero Negro, o quadro de c. 1914-1915: aparece como um eclipse - como algo que tapa, que oblitera, que cobre impondo as reivindicações da superfície bidimensional.

Temos na nossa ciberbiblioteca Tower of Googel uma tradução brasileira de textos de Malievich, de acesso livre ("full view"): Dos Novos Sistemas na Arte, S. Paulo, Hedra, 2006.

O Getty tem, "online", uma excelente colecção de cadernos manuscritos, livros e revistas produzidos pelas vanguardas russas, partilhando ciberneticamente o espólio da biblioteca do seu instituo de investigação. O "full record" fornece todas as informações históricas, materiais e arquivísticas.

Alexei Kruchonykh, Pomada, Moscovo, 1913. Capa de Mikhail Larionov. Extensa informação no Research Institute do Getty.

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segunda-feira, fevereiro 22, 2010

Novo semestre (Ar.Co, 2009 - 2010)

Kazimir Malevich (1878-1935), Composição Suprematista: Branco Sobre Branco, óleo sobre tela, 1918, 79,4 x 79,4 cm, Museum of Modern Art

O curso "Cruzamentos" dedica-se, exclusivamente, à arte do século XX. O que não é, em absoluto, verdadeiro, porque começaremos por procurar no século anterior, o XIX, o início de transformações, patentes em objectos, imagens, acções e em construções teóricas, que manifestam uma reorganização de elementos já equacionados pela tradição e a introdução de outros, novos. Começaremos por tomar como divisa a afirmação de Marx e Engels no Manifesto Comunista de 1848: "tudo o que é sólido se desfaz no ar", seguindo a tradução inglesa de 1888. O século XXI é a meta e o ponto de vista teórico do curso: é a partir daqui que se olha, que se pensa, que se nomeia, que se problematiza.

A pintura e a escultura, confrontar-se-ão - cruzar-se-ão - com a arquitectura, o cinema, a música, a instalação, a performance, o vídeo e as imagens digitais, e, eventualmente, com a literatura, o teatro e a dança. As Belas-Artes encontrar-se-ão com a cultura de massas e com a produção industrial. A nostalgia do passado com as miragens do futuro.

As indicações bibliográficas serão fornecidas ao longo do curso, mas encontrar-se-á um apoio bibliográfico, largamente cibernético, através da "Bibliocibergrafia" (na barra de "links" - a coluna da direita) e da etiqueta Bibliografias. Na etiqueta Semestre (na barra de "links") podem encontrar-se mais esclarecimentos sobre o curso. Recomenda-se a familiarização com a barra lateral de "links" e as visitas regulares aos "blogs" "Cruzamentos" e "A Arte Moderna", bem como ao Centro de Documentação (uma biblioteca que não tem só livros) do Ar.Co, recentemente viajado para as instalações de Almada.

As aulas dedicadas à apresentação de material audiovisual (cinema, vídeo, música) serão, tanto quanto possível, anunciadas com antecedência.

O curso decorrerá no número 18 da Rua de Santiago, em Lisboa, das 21 às 23 horas. 64 horas lectivas; 100 créditos. De 22 de Fevereiro a 23 de Junho de 2010.

Robert Rauschenberg (1925-2008), Erased de Kooning Drawing, 1953, 64,14 cm x 55.25 cm x 1,27 cm, SFMOMA

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quarta-feira, abril 30, 2008

Malevich, o arquitecto Häring, o museu e os herdeiros

Kazimir Malevich (1878 - 1935), Realismo Pictórico de um Jogador de Futebol, 1915, óleo sobre tela, 70 x 44 cm. Colecção Herdeiros de Malevich


Settlement regarding the Malevich collection
24.04.08
Longstanding dispute between the City of Amsterdam and the Heirs of Malevich concerning the Malevich collection that has been in the Stedelijk Museum since 1958 has been finally resolved.
When the Stedelijk Museum exhibited fourteen works of Malevich in the United States of America in 2003-2004, the Heirs of Malevich claimed ownership of them before a United States Court. The amicable settlement that has been reached concerns not only the fourteen works that were the subject of the US action, but covers the entire group of Malevich works in the City’s collection. Pursuant to the settlement, the artist’s descendants will receive five important paintings from the City’s collection, the remaining works in the collection will remain with the City, and the Heirs’ U.S. action will be permanently withdrawn.

Click here for the five paintings>>

This will end the longstanding dispute between the City and the Heirs that began in the 1990’s after the fall of the Iron Curtain. The City has always held the view that it acquired the collection properly and honorably in 1958. The Heirs contest this; in their view the selling party, Dr. H. Häring, had no right and was not entitled to sell the artist’s works.

In reaching this historic settlement, the City and the Heirs strived for a resolution that honors the selection by Malevich himself of the artworks, preserves the collection as his remaining legacy, acknowledges the historical developments and circumstances that prevented Malevich from returning to Berlin and to his artworks after he was called back to the Soviet Union in 1927, and respects and acknowledges the legacy of the Heirs.

The City and the Heirs agree that the amicable settlement achieves these objectives and settles all questions as to the title to the collection. The City acknowledges that the Heirs have title to the five paintings being transferred to them, and the Heirs acknowledge that the City has title to the works in the collection remaining with the City. The City has given these works on a long term loan to the Stedelijk Museum Amsterdam.

The Mayor of Amsterdam, Job Cohen, said of the settlement: “The Museum works remaining with the City will continue to be open to the general public and available for research as an ensemble through its presence in the Stedelijk Museum Amsterdam. The role of Malevich as a pioneer of modern and contemporary art is optimally visible in the context of the collection of modern art of the Stedelijk Museum Amsterdam. Therefore, as of December 2009, the artworks of Malevich will be given a place of honour in the reopened Stedelijk Museum Amsterdam.”

The Heirs, commenting on the settlement through a spokesperson, said: “It is a tribute to all of the parties that we were able to find a fair solution to such a complicated problem. The Malevich family is gratified that this matter has been resolved in a way that acknowledges Malevich’s legacy and his contributions to the history of 20th century art, keeps a representative portion of the collection together on public display for all to see and cherish, and provides us with a representative group of five noteworthy works by our noted ancestor.”


Quanto ao acordo do MoMA, poderá consultar-se este curto artigo da revista Art in America que explica as circunstâncias em que cerca de 70 quadros de Malevich foram confiados ao arquitecto alemão Hugo Häring.

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quinta-feira, março 27, 2008

A 4ª dimensão na cultura de massas: Flatland

Ilustração de Flatland: o narrador, um bidimensional quadrado, representando o unidimensional país das linhas, que visitou em sonhos

Stranger. Have you felt me enough by this time? Are you not introduced to me yet?

I. Most illustrious Sir, excuse my awkwardness, which arises not from ignorance of the usages of polite society, but from a little surprise and nervousness, consequent on this somewhat unexpected visit. And I beseech you to reveal my indiscretion to no one, and especially not to my Wife. But before your Lordship enters into further communications, would he deign to satisfy the curiosity of one who would gladly know whence his Visitor came?

Stranger. From Space, from Space, Sir: whence else?

I. Pardon me, my Lord, but is not your Lordship already in Space, your Lordship and his humble servant, even at this moment?

Stranger. Pooh! what do you know of Space? Define Space.

I. Space, my Lord, is height and breadth indefinitely prolonged. Stranger. Exactly: you see you do not even know what Space is. You think it is of Two Dimensions only; but I have come to announce to you a Third - height, breadth, and length.

I. Your Lordship is pleased to be merry. We also speak of length and height, or breadth and thickness, thus denoting Two Dimensions by four names.

Stranger. But I mean not only three names, but Three Dimensions.

I. Would your Lordship indicate or explain to me in what direction is the Third Dimension, unknown to me?

Stranger. I came from it. It is up above and down below.

I. My Lord means seemingly that it is Northward and Southward.

Stranger. I mean nothing of the kind. I mean a direction in which you cannot look, because you have no eye in your side.

I. Pardon me, my Lord, a moment's inspection will convince your Lordship that I have a perfect luminary at the juncture of two of my sides.

Stranger. Yes: but in order to see into Space you ought to have an eye, not on your Perimeter, but on your side, that is, on what you would probably call your inside; but we in Spaceland should call it your side.

I. An eye in my inside! An eye in my stomach! Your Lordship Jests.

Stranger. I am in no jesting humour. I tell you that I come from Space, or, since you will not understand what Space means, from the Land of Three Dimensions whence I but lately looked down upon your Plane which you call Space forsooth. From that position of advantage I discerned all that you speak of as solid (by which you mean "enclosed on four sides"), your houses, your churches, your very chests and safes, yes even your insides and stomachs, all lying open and exposed to my view.

I. Such assertions are easily made, my Lord.

Stranger. But not easily proved, you mean. But I mean to prove mine. When I descended here, I saw your four Sons, the Pentagons, each in his apartment, and your two Grandsons the Hexagons; I saw your youngest Hexagon remain a while with you and then retire to his room, leaving you and your Wife alone. I saw your Isosceles servants, three in number, in the kitchen at supper, and the little Page in the scullery. Then I came here, and how do you think I came?

I. Through the roof, I suppose.

Stranger. Not so. Your roof, as you know very well, has been recently repaired, and has no aperture by which even a Woman could penetrate. I tell you I come from Space. Are you not convinced by what I have told you of your children and household?

Edwin A. Abbott (1838-1926), Flatland: A Romance of Many Dimensions, London, Seely & Co., 1884

Encontram-se muitas outras publicações "online" de Flatland. Destaco o fac-simile (em vários formatos) oferecido pelo "Internet Archive" e a tradução portuguesa, a descarregar ("download") a partir de um "site" de partilha de ficheiros (esnips).

Clicando no título desta entrada ("post"), tem-se acesso a um abrangente artigo, relacionando a 4ª dimensão com as artes, a ciência e a ficção científica. Quarta dimensão, movimentos espiritualistas e obras artísticas são sumarizados por Roann Barris em The Fourth Dimension and Theosophy: A Summary of Key Ideas (em pdf).

A utilização da tetradimensionalidade pelo Futurismo, em especial por Boccioni, posta em relação com a cultura filosófica (sobretudo Henri Bergson) e científica da época, é explorada em Mark Antliff, "The Fourth Dimension and Futurism: A Politicized Space", The Art Bulletin, December 2000.

As referências de Marcel Duchamp (1887-1968) à 4ª dimensão têm sido objecto de diversas reflexões. É possível encontrar muitas "online":

  • Jerrold Seigel, The Private Worlds of Marcel Duchamp. Desire, Liberation, and the Self in Modern Culture, Berkeley-Los Angeles-Oxford, University of California Press, 1997, sobretudo pp. 99-106

  • Josep Perelló, "Poincaré i Duchamp: Encontre a la Quarta Dimensió", Artnodes, Juliol de 2005 (em pdf)

  • Ronda Roland Shearer, Marcel Duchamp's Impossible Bed and Other "Not" Readymade Objects: A Possible Route of Influence From Art To Science / Part II

  • Roberto Giunti, "The Bachelor Stripped Bare by Cabri Geometre, Even", na revista Tout-Fait (2007), onde mais informação sobre o tema poderá ser encontrada (por exemplo, buscando "dimension").

  • Uma busca na internet facilmente multiplicará estas referências bibliográficas.

    Para ver mexer o "Grand Verre" (actualizando o seu movimento virtual), visite-se Making Sense of Marcel Duchamp e clique-se sobre a obra, no ano de 1923. Jean Suquet, em "LE GRAND VERRE: Visite Guidée" (Paris, l'Échoppe, 1992, versão "online" na Tout-Fait), guia-nos pela sua leitura do "Grand Verre".

    Sobre a 4ª dimensão em Malevich (1878-1935), outro dos seus mais constantes cultores, veja-se Kazimir Malevitch, Écrits, Paris, Ed. Lebovici, 1986, prefácio, selecção e tradução para francês de A. Nakov (existe no C.D. do Ar.Co com a cota 7 MAL 01).

    Kazimir Malevich (1878-1935), Realismo Pictórico. Rapaz com Mochila - Massas de Cor na Quarta Dimensão, 1915, óleo sobre tela, 71.1 x 44.5 cm, MoMA, Nova Iorque

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    terça-feira, junho 20, 2006

    2 ou 3 sinfonias urbanas

    Paul Strand e Charles Sheeler, Manhatta, 1921 (fotograma)

    "Comparado com o Décimo Primeiro Ano, O Homem da Máquina de Filmar é um passo em frente, uma vez que já não representa um tema que mantém toda a sua imagem ao longo da duração do filme, representando antes o colapso do tema e mesmo a dissolução dos objectos no tempo, às custas da expressão dinâmica. (...) Ambas as produções são ainda mistas, com duas polaridades, ou duas imagens. A imagem do lixo e a imagem do movimento dinâmico. (...) No entanto, Dziga Vertov caminha inexoravelmente em direcção a uma nova forma de expressão dos conteúdos contemporâneos (...) - da pura força e dinâmica.
    (...) A dinâmica é o verdadeiro alimento do cinema, a sua essência.
    Dziga Vertov não tenta analisar ou justificar a máquina, centrando-se no facto de que produz cigarros ou muge vacas; em vez disso, ele mostra o movimento em si, a dinâmica em si - a força que sempre foi escondida atrás da boquilha ou das costas de Monty Banks.
    Tendo treinado a lente da nossa câmara na ainda-a-experienciar dinâmica da vida metálica, industrial e socialista, seremos capazes de ver um mundo novo que ainda não foi expresso". Kazimir Malevich, "Leis da Pintura nos Problemas Cinematográficos" in Margarita Tupitsyn, Malevitch and Film, New Haven-London, Yale University Press-Fundação Centro Cultural de Belém, s.d. [2002], pp. 147-159. Texto originalmente publicado em 1929, no nº 7-8 da revista russa Cinema e Cultura (Kino i Kul'tura). Tradução a partir do inglês. Os links foram acrescentados ao texto original para o explicitar.

    O J. Paul Getty (Los Angeles) dedicou ao trabalho fotográfico de Paul Strand (1890-1976), com Charles Sheeler (1883–1965) co-autor de Manhatta, uma importante exposição no ano passado (Maio a Setembro de 2005), colocando online muita informação sobre Strand, incluindo um link (para o Met de Nova Iorque) que permite ver Manhatta em "Real Video" ou em "Quicktime". O link do Met permite, ainda, ver outras obras sobre a cidade de Nova Iorque em Artists View - New York e ter acesso aos excertos do poema Leaves of Grass, de Walt Whitmann (1819-1892), que constituem os intertítulos do filme de Strand e Sheeler. O poema está acessível, na íntegra, no Projecto Gutenberg.

    Manhatta e O Homem da Máquina de Filmar, hoje, no Ar.Co, a partir das 21 horas.

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    quinta-feira, maio 18, 2006

    Malevich em atraso: textos

    Auroch pintado na "Rotunda dos Touros", Lascaux

    A arte naturalista é uma ideia de selvagem: o desejo de reproduzir o que ele vê e não de criar uma forma nova (pág. 183).



    Edouard Manet (1832-1883), Mlle. Victorine Meurent Mascarada de Espada, 1862, óleo sobre tela, The Metropolitan Museum of Art, New York

    Os Académicos realistas são os últimos descendentes do selvagem (pág. 186).



    Edouard Manet (1832-1883), Olympia, 1863, óleo sobre tela, 1,30 m x 1,90 m, Musee d'Orsay, Paris

    Aqueles que seguem o seu tempo são mais altos, maiores, mais importantes. O realismo do século XIX é muito maior que as formas ideais das emoções estéticas sob o Renascimento e a Grécia. Os artistas [clássicos] estavam oprimidos pelo gosto estético (pág. 182).



    Alexander Adriaenssen (1587-1661), Natureza Morta com Peixe, óleo sobre painel de carvalho, 55 x 75,6 cm, Groeninge Museum, Bruges

    Reproduzir os objectos e recantos favoritos da natureza é agir como um ladrão que contemplasse com admiração os seus pés algemados (pág. 180).
    Querendo reproduzir a vida da forma no quadro, apenas se reproduzia qualquer coisa morta. O vivo era reduzido à imobilidade, ao estado da morte
    (pág. 185).



    Kazimir Malevich (1878 - 1935), Suprematismo, 1917-1918. Oil on canvas. 106 x 70.5 cm. Stedelijk Museum, Amsterdam

    Criar significa viver, forjar eternamente coisas novas (pág. 184).
    Não mais considerar tudo o que existe na natureza como coisas e formas reais, mas como um material na massa do qual é preciso fazer formas que não têm nada a ver com o modelo
    (pág. 185).
    O mais precioso da criação pictórica são a cor e a textura; elas constituem a essência da pintura que o assunto sempre assassinou. É preciso dar às formas vida e o direito à existência individual
    (pág. 185).



    Charles Rennie Mackintosh, "Hill House Chair", 1902/3

    A criação utilitária tem uma vocação. A criação intuitiva não tem vocação utilitária (…). A forma intuitiva deve sair do nada. Tal como a razão criou a partir do nada coisas destinadas ao uso quotidiano e as aperfeiçoa. Eis porque as formas da razão utilitária são superiores a qualquer representação oferecida pelos quadros. Superiores porque vivas, porque saídas da matéria a que foi dado novo aspecto para uma vida nova (pág. 192).



    Wladimir Tatlin, Letatlin, 1929–1932

    Seguindo as formas dos aeroplanos, dos automóveis, nós estaremos constantemente na esteira das formas da vida técnica, novas e abandonadas... Seguindo a forma das coisas, não podemos dedicar-nos ao fim pictural em si mesmo, à criação directa (pág. 189).



    Richard Mutt (Marcel Duchamp (1887-1968)), Fountain, 1917. Fotografia de Alfred Stieglitz (1864-1946) para a revista Blind Man nº 2 (pág. 4)

    Distribuir o mobiliário numa sala não é ainda um processo de criação (…). Pôr um samovar sobre a mesa será também criação? (pág. 184)



    Mikhail Larionov, Raionismo Vermelho, 1913, aguarela sobre papel, 26,3 x 36,4 cm, Colecção Merzinger, Suíça

    Para a nova cultura artística, as coisas evaporaram-se como em fumo e a arte vai em direcção ao fim em si, à criação, em direcção ao domínio das formas da natureza (pág. 180).



    Wassily Kandinsky (1866-1944), Mit dem schwarzen Bogen / Com o Arco Negro, 1912, óleo sobre tela, 189 x 198 cm, Centre Georges Pompidou, Paris

    Hoje em dia, o pintor tem de saber o que se passa no seu quadro e porquê. Antigamente, ele sofria a influência deste ou daquele estado de espírito (…). E acabava por imputar os seus desejos à vontade intuitiva. Em consequência, o sentimento intuitivo não se exprimia com clareza (pp. 192-93).



    Kazimir Malevich (1878 - 1935), Quadrilátero Vermelho. Realismo Visual de uma Camponesa em duas dimensões, 1915, óleo sobre tela, 53 x 53 cm, Museu Russo, St. Petersburg

    As formas sairão das massas pictóricas, isto é, hão-de surgir como surgem as formas utilitárias. Essas formas não serão a repetição das coisas que vivem na vida, elas serão coisa viva. Uma superfície-plano colorida é uma forma viva e real. (...) As formas do suprematismo, ou novo realismo pictórico, provam que as formas encontradas pela razão intuitiva foram construídas a partir do nada (pp. 193-94).



    Kazimir Malevich (1878 - 1935), Quadrilátero Negro, [1913] 1923-29, óleo sobre tela, 106.2 x 106.5 cm, State Russian Museum, St. Petersburg

    Metamorfoseei-me em zero das formas, cheguei ao que está para lá do zero, à criação, quer dizer ao suprematismo, novo realismo pictórico, criação não-objectiva. O suprematismo é o princípio de uma nova civilização. O selvagem foi vencido, como o macaco foi vencido (pág. 198).
    O quadrado não é uma forma inconsciente. É a criação da razão intuitiva. É a face da nova arte
    (pág. 198).



    Kazimir Malevich (1878 - 1935), Suprematismo, c. 1915 (?), óleo sobre contraplacado, 71 x 45 cm, Museu Russo, St. Petersburg

    Até hoje, só existia o realismo das coisas, mas não o das unidades pictóricas, das cores construídas de maneira a não dependerem nem da forma, nem da cor, nem da sua situação por relação com outra unidade. Cada forma é livre e individual. Cada forma é um mundo (pág. 198).



    Jackson Pollock ((1912-56) fotografado a trabalhar, por Hans Namuth, em 1950

    A arte é a capacidade de criar uma construção que não provém das relações entre as formas e a cor, que não é fundada sobre o gosto estético que preconiza o bonitinho da composição, mas que é construída sobre o peso, a velocidade e a direcção do movimento. É preciso dar às formas o direito à existência individual (…). Nós somos o coração vivo da natureza (…). Nós somos o seu cérebro vivo (pág. 195).

    Nós, os suprematistas, abrimo-vos o caminho. Andai depressa! Porque amanhã já não ireis reconhecer-nos. Moscovo 1915 (pág. 201).


    (Excertos retirados de Do Cubismo e do Futurismo ao Suprematismo (…), segundo a 3ª edição, Moscovo, 1916 in Kazimir Malevitch, Écrits, Paris, Ed. Lebovici, 1986, prefácio, selecção e tradução para francês de A. Nakov (cota Ar.Co 7 MAL 01). Os excertos foram reordenados, traduzidos, sujeitos a uma nova lógica de pontuação e ilustrados. É a ilustração que comenta o texto. Em diálogo)

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