Cruzamentos

sexta-feira, abril 09, 2010

Vanguardas russas

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Recriação contemporânea da ópera Победа над Солнцем / Vitória Sobre o Sol, com libreto transracional (zaum) de Aleksei Kruchonykh, música de Mikhail Matyuchine, cenografia e figurinos de Kazimir Malievich. Estreia em 1913, no Luna Park de S. Petersburgo.

Uma rápida busca pela "internet" oferece vários exemplos de recriações, mais ou menos fiéis à versão original, da ópera Vitória Sobre o Sol, na qual aparece, pela primeira vez, o icónico e gerador quadrado negro de Malievich, antes de ser o Quadrilátero Negro, o quadro de c. 1914-1915: aparece como um eclipse - como algo que tapa, que oblitera, que cobre impondo as reivindicações da superfície bidimensional.

Temos na nossa ciberbiblioteca Tower of Googel uma tradução brasileira de textos de Malievich, de acesso livre ("full view"): Dos Novos Sistemas na Arte, S. Paulo, Hedra, 2006.

O Getty tem, "online", uma excelente colecção de cadernos manuscritos, livros e revistas produzidos pelas vanguardas russas, partilhando ciberneticamente o espólio da biblioteca do seu instituo de investigação. O "full record" fornece todas as informações históricas, materiais e arquivísticas.

Alexei Kruchonykh, Pomada, Moscovo, 1913. Capa de Mikhail Larionov. Extensa informação no Research Institute do Getty.

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5 Comments:

  • foram aulas bem interessantes, com um professor muito bom.

    só espero no próximo ano ver mais alguns filmes :

    um grande abraço
    jorge

    p.s.
    só tenho pena que a obra de malievich só dê para ser lida online. nem se pode gravar nem imprimir.

    By Blogger jorge vicente, at 19/7/10 03:03  

  • Obrigado, Jorge, mas tanta amabilidade até me deixou sem saber se havia ou não de publicar o seu comentário.

    Quanto aos filmes, é fácil: apareça.

    By Blogger otipodashistórias, at 24/7/10 22:34  

  • O etéreo – arte sonora/arte com luz são duas tendências fortíssimas na arte contemporânea, a par dum repensar do efémero na obra de arte, muitas vezes por via do apagamento daquilo que se fez, do happening, da relação social efémera, dos materiais perecíveis, etc. E é muito curioso notar um fortalecer/florescer destas tendências na arte do Reino Unido e europeia que remonta precisamente à grande exposição que a Tate Gallery fez sobre… Suprematismo – ou seja, às exposições Suprematistas organizadas pelo Nakov em Londres em 76/77. Que até têm tido continuidade na Tate Modern, com regressos mais ou menos frequentes aos Suprematistas e seus “parentes plásticos”. Ora veja-se como o efémero (apagar as pinturas de parede) e o etéreo (som) estão presentes nos Turner Prizes 2009 e 2010. Isso são presentes malevitchianos, a meu ver.
    Note-se a importância do efémero para a arte comunitária e da ausência de substância material para a arte relacional. Vejo uma ligação umbilical de Malevitch ao +/- de Mondrian, ao +/- de Ernst e – que interessante –, por exemplo, ao actual +/-, português grupo de Arte Urbana (olha, lembra-me outra coisa: “The streets shall be our brushes - the squares our palettes” – frase de Vladimir Mayakovsky), cujos produtos gráficos são esteticamente muito próximos de Malevitch (e a forma como são espacialmente colocados e ironicamente apresentados também é muito interessante), grupo que brotou duma tese académica. Também há artistas a fazer exposições como “Zaha Hadid and Suprematism” (2010) e pintores britânicos a reflectir sobre o assunto.

    By Anonymous alexandra_pereira, at 14/4/11 12:04  

  • Para mim, Malevitch não chega só à opacidade, chega também a uma espécie de luz. A luz é mais do que transparente: é etérea (o etéreo é tão importante no Taoísmo, por exemplo – lá voltamos às leituras de Malevitch). E a luz branca contém em si todas as cores do espectro visível. Além disso, demonstra que um branco frio colocado sobre um branco quente adquire tridimensionalidade na direcção do observador (mas não eram normalmente as cores quentes que se aproximavam de nós e as frias que se afastavam??). Um projector de cinema projecta, antes de mais, uma luz branca sobre uma tela branca. Malevitch também fez uma peça com luzes (retoma-se a tendência do imaterial pela luz – e do pensar as cores usando luzes, lâmpadas – na arte contemporânea: há peças extraordinárias e até exposições importantes cujo conceito curatorial tem a ver com isso mesmo) e ele era do país dos pioneiros do cinema. O material que é a tela em branco e o imaterial que é a luz branca projectada sobre ela estão ambos presentes no cinema e permitem que imagens e personagens transparentes (e coloridas) se animem.
    Branco s/ branco não é, como se sabe, branco sobre branco, mas cinza sobre castanho (como o preto do quadrângulo negro continha ultramarino), o que tem, a meu ver, duas implicações: quando Malevitch chama a uma coisa Branco s/ branco mas está lá um quadrado cinza sobre um fundo acastanhado faz com que a obra perca literalidade pelo título (faz o mesmo que Duchamp fez com o seu "Jovem Homem Triste Dentro Dum Comboio", etc.), colocando-a também nos primórdios da arte conceptual. Ou seja, Malevitch tende a enfatizar a cor e a sobreposição e não a forma (“Quadrado”). Por outro lado, a intervenção do outro que é público, moldando-apropriando-se do título duma obra (como aliás já tinha feito com o “Quadrângulo”) e, por conseguinte, da percepção dela (“Quadrado”) é muito interessante. Isto parece-me ser o maior trunfo de Malevitch e vai muito além da mera incorporação visual do espectador na obra do Grand Verre Duchampiano, mais tardio. 4ª dimensão no Grand Verre de Duchamp (1923)? Hummm… lembra-me um certo título: Color Masses in the Fourth Dimension (Malevitch, 1915). Duchamp a escrever nos quadros? Também Malevitch, nas pinturas e nos desenhos – antes dele. Pulsões em Duchamp e o inconsciente nos Surrealistas - não eram a Transmentalidade, o Alogismo e a importância da intuição em Malevitch já premissas disso? Feminismo em Duchamp? E o papel das mulheres nas Vanguardas Russas, par-a-par? (o mesmo não poderia dizer Hanna Höch dos Dadas mais tarde, por exemplo...).
    Se para uns Malevitch é opacidade e Duchamp é transparência, para mim Malevitch contém no seu trabalho equacionados os 2 pólos da questão. Para um pintor ou um desenhista, branco é o quê? Ou é tela em branco (inspiração ou falta dela – ambas ideias românticas e pouco acuradas, até por causa do grande uso do pano cru castanho e das telas com primários coloridos), ou é apagar (e, já agora, temos o tique de associar “negro” à sombra, mesmo sabendo que não é assim, as sombras não são negras faz tanto tempo…). Ou seja, ou é opacidade e materialidade (da tela ou da tinta?), ou é transparência e ecrã. Para mim, branco sobre branco não é só materialidade da tela, é materialidade da tinta, transparência das tintas até à tela e sobretudo apagar (e esse quadro lembra-me tanto um vidro ou uma lâmina transparente colocado sobre uma tela… lá está a tridimensionalidade). A Mona Lisa Rasée de Duchamp é já um apagamento, e o apagar, para mim, está muito ligado à materialidade e transparência das tintas e ao facto de uma pintura ser um desenho com mais camadas (senão, pergunte-se ao Paulo Brighenti, um ex-discípulo de João Queiroz, o que é a pintura para ele, por exemplo...).

    By Anonymous alexandra_pereira, at 15/4/11 12:41  

  • Houve um tempo em que eu via muitos vídeos do Rauschenberg e num deles ele explicava que "havia um equívoco a esclarecer" e que "todo" o mérito do "Erased De Kooning Drawing" era de facto do De Kooning, porque este lhe dizia sempre que "a pintura, mais do que saber pintar, é saber apagar" , uma frase que nunca lhe saiu da cabeça (e uma intuição que qualquer pintor iniciado tem). O que quero dizer é que há aqui um nozinho que liga Malevitch a De Kooning. Mais: aos Países Baixos (exº: Oorebeek, que apaga com preto – mais: um preto transparente). Mas apagar (esta ideia parece-me tão importante). Malevitch mostrou-nos também como contrastar duas cores tão semelhantes: aquecendo e esfriando a mesma cor de base, há aqui uma intuição térmica que é uma lição de pintura no domínio cromático - talvez por isso Malevitch tenha pegado na caneta para continuar a pintar ensinando. E ido atrás refazer pinturas para "corrigir erros" (há pintores que nos dizem que acham que estão sempre a fazer a mesma pintura, de qualquer modo…).
    O que é mais giro em Malevitch é a forma como, querendo centra-se na reflexão sobre a pintura, chegou a conclusões importantes para todas as artes visuais… e não só. As implicações para e relações com escrita, música, cinema, teatro e arquitectura são extraordinárias. É engraçado ver que implicações que foram até ideologicamente desvirtuadas em domínios como a arquitectura regressam hoje ao plano das artes visuais para serem repensadas, o que é muito giro – este «efeito boomerang». Último aparte para um outro nó muito interessante que, na verdade, é um laço ou mais, por assim dizer, um «boomerang»: essa meada que liga Malevitch a Kurt Schwitters e que leva da arquitectura utópica de Malevitch a Buckminster Fuller, Yona Friedman, o grupo Archigram e Tomas Saraceno (achei piada porque escrevi sobre a relação entre estes últimos no passado). Pois uma exposição de Saraceno e Friedman sobre «Merz-estruturas» abriu ontem no… Cabaret Voltaire, Zurique. O que significa que estes dois nomes reconhecem a sua filiação Dada, ou mais exactamente a sua filiação a Schwitters – o tal que privou em Berlim e Hannover com El Lissitzky, o brilhante discípulo de Malevitch das pinturas Proun (“a estação onde se muda da pintura para a arquitectura”). Pois, agora, marcha-atrás. Isto é, em diante.

    By Anonymous alexandra_pereira, at 15/4/11 12:50  

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