Cruzamentos

segunda-feira, março 22, 2010

Hoje: cinema no Ar.Co

Edwin S. Porter, The Great Train Robbery (fotograma), Edison Manufacturing Company (1903), The Library of Congress


Hoje há cinema no Ar.Co, em Lisboa, a partir das 21 horas. Procuraremos elementos próximos das vanguardas das duas primeiras décadas do século XX: expressionismos, cubismo e futurismo. Mas, para lá das etiquetas estilísticas, das legitimações teóricas, das pesquisas técnicas, do artístico ou não artístico, vamos em busca da fragmentação, da multiplicidade e da divergência, que temos vindo a seguir na pintura, escultura e arquitectura. O fascínio futurista pela cidade industrial e mecânica, espaço onde se cruzam divergências, conduzir-nos-á ao género cinematográfico das "Sinfonias Urbanas". E, antes de querer ser expressionista, cubista, futurista, ou qualquer coisa no meio, o cinema manifesta e gera uma nova relação da civilização industrial com o espaço e com o tempo - uma nova percepção: sobretudo através da montagem e dos "efeitos especiais".

Mais informações na etiqueta "Cinema" e, em especial, nas entradas "Espaço, tempo e cinema" (de 14 de Março de 2007), "Cinema, hoje, no Ar.Co, às 21 horas" (de 9 de Abril de 2008) e "Modernismos e cinema 1" (de 10 de Abril de 2008), onde se apresenta uma filmografia muito semelhante à que será seguida hoje.

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quinta-feira, abril 10, 2008

Modernismos e cinema 1

Georges Méliès, Le Voyage dans la Lune, 1902 (fotograma)

Modernismos e cinema: programa 1

1.1. Cinema e percepção:

Georges Méliès, Un Homme de Têtes (1898)

Edwin S. Porter, The Great Train Robbery , Edison Manufacturing Company (1903)

D. W. Griffith, The Lonedale Operator (1911). A fita, plano a plano.

D. W. Griffith, The Birth of a Nation (1915)

Abel Gance, Napoléon (1927). Um excerto com a música original de Arthur Honegger (1892-1955) - e intertítulos em francês.

Robert Wiene, Das Cabinet Des Doktor Caligari, 1920 (fotograma)

1.2. Marcas expressionistas, cubistas e futuristas no cinema:

Abel Gance, La Folie du Docteur Tube (1915)

Robert Wiene, Das Cabinet Des Doktor Caligari (1920)

Sergei Eisenstein, Броненосец Потемкин / O Couraçado Potiemkine (1925)

Marcel l'Herbier, L'Inhumaine (1924). Ver, também, uma conferência sobre o filme.

Charles Sheeler, Paul Strand, Manhatta (1921). Ver mais informação numa entrada anterior.

Walter Ruttmann, Berlin: Sinfonie der Großstadt (1927)

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quinta-feira, março 27, 2008

A 4ª dimensão na cultura de massas: Flatland

Ilustração de Flatland: o narrador, um bidimensional quadrado, representando o unidimensional país das linhas, que visitou em sonhos

Stranger. Have you felt me enough by this time? Are you not introduced to me yet?

I. Most illustrious Sir, excuse my awkwardness, which arises not from ignorance of the usages of polite society, but from a little surprise and nervousness, consequent on this somewhat unexpected visit. And I beseech you to reveal my indiscretion to no one, and especially not to my Wife. But before your Lordship enters into further communications, would he deign to satisfy the curiosity of one who would gladly know whence his Visitor came?

Stranger. From Space, from Space, Sir: whence else?

I. Pardon me, my Lord, but is not your Lordship already in Space, your Lordship and his humble servant, even at this moment?

Stranger. Pooh! what do you know of Space? Define Space.

I. Space, my Lord, is height and breadth indefinitely prolonged. Stranger. Exactly: you see you do not even know what Space is. You think it is of Two Dimensions only; but I have come to announce to you a Third - height, breadth, and length.

I. Your Lordship is pleased to be merry. We also speak of length and height, or breadth and thickness, thus denoting Two Dimensions by four names.

Stranger. But I mean not only three names, but Three Dimensions.

I. Would your Lordship indicate or explain to me in what direction is the Third Dimension, unknown to me?

Stranger. I came from it. It is up above and down below.

I. My Lord means seemingly that it is Northward and Southward.

Stranger. I mean nothing of the kind. I mean a direction in which you cannot look, because you have no eye in your side.

I. Pardon me, my Lord, a moment's inspection will convince your Lordship that I have a perfect luminary at the juncture of two of my sides.

Stranger. Yes: but in order to see into Space you ought to have an eye, not on your Perimeter, but on your side, that is, on what you would probably call your inside; but we in Spaceland should call it your side.

I. An eye in my inside! An eye in my stomach! Your Lordship Jests.

Stranger. I am in no jesting humour. I tell you that I come from Space, or, since you will not understand what Space means, from the Land of Three Dimensions whence I but lately looked down upon your Plane which you call Space forsooth. From that position of advantage I discerned all that you speak of as solid (by which you mean "enclosed on four sides"), your houses, your churches, your very chests and safes, yes even your insides and stomachs, all lying open and exposed to my view.

I. Such assertions are easily made, my Lord.

Stranger. But not easily proved, you mean. But I mean to prove mine. When I descended here, I saw your four Sons, the Pentagons, each in his apartment, and your two Grandsons the Hexagons; I saw your youngest Hexagon remain a while with you and then retire to his room, leaving you and your Wife alone. I saw your Isosceles servants, three in number, in the kitchen at supper, and the little Page in the scullery. Then I came here, and how do you think I came?

I. Through the roof, I suppose.

Stranger. Not so. Your roof, as you know very well, has been recently repaired, and has no aperture by which even a Woman could penetrate. I tell you I come from Space. Are you not convinced by what I have told you of your children and household?

Edwin A. Abbott (1838-1926), Flatland: A Romance of Many Dimensions, London, Seely & Co., 1884

Encontram-se muitas outras publicações "online" de Flatland. Destaco o fac-simile (em vários formatos) oferecido pelo "Internet Archive" e a tradução portuguesa, a descarregar ("download") a partir de um "site" de partilha de ficheiros (esnips).

Clicando no título desta entrada ("post"), tem-se acesso a um abrangente artigo, relacionando a 4ª dimensão com as artes, a ciência e a ficção científica. Quarta dimensão, movimentos espiritualistas e obras artísticas são sumarizados por Roann Barris em The Fourth Dimension and Theosophy: A Summary of Key Ideas (em pdf).

A utilização da tetradimensionalidade pelo Futurismo, em especial por Boccioni, posta em relação com a cultura filosófica (sobretudo Henri Bergson) e científica da época, é explorada em Mark Antliff, "The Fourth Dimension and Futurism: A Politicized Space", The Art Bulletin, December 2000.

As referências de Marcel Duchamp (1887-1968) à 4ª dimensão têm sido objecto de diversas reflexões. É possível encontrar muitas "online":

  • Jerrold Seigel, The Private Worlds of Marcel Duchamp. Desire, Liberation, and the Self in Modern Culture, Berkeley-Los Angeles-Oxford, University of California Press, 1997, sobretudo pp. 99-106

  • Josep Perelló, "Poincaré i Duchamp: Encontre a la Quarta Dimensió", Artnodes, Juliol de 2005 (em pdf)

  • Ronda Roland Shearer, Marcel Duchamp's Impossible Bed and Other "Not" Readymade Objects: A Possible Route of Influence From Art To Science / Part II

  • Roberto Giunti, "The Bachelor Stripped Bare by Cabri Geometre, Even", na revista Tout-Fait (2007), onde mais informação sobre o tema poderá ser encontrada (por exemplo, buscando "dimension").

  • Uma busca na internet facilmente multiplicará estas referências bibliográficas.

    Para ver mexer o "Grand Verre" (actualizando o seu movimento virtual), visite-se Making Sense of Marcel Duchamp e clique-se sobre a obra, no ano de 1923. Jean Suquet, em "LE GRAND VERRE: Visite Guidée" (Paris, l'Échoppe, 1992, versão "online" na Tout-Fait), guia-nos pela sua leitura do "Grand Verre".

    Sobre a 4ª dimensão em Malevich (1878-1935), outro dos seus mais constantes cultores, veja-se Kazimir Malevitch, Écrits, Paris, Ed. Lebovici, 1986, prefácio, selecção e tradução para francês de A. Nakov (existe no C.D. do Ar.Co com a cota 7 MAL 01).

    Kazimir Malevich (1878-1935), Realismo Pictórico. Rapaz com Mochila - Massas de Cor na Quarta Dimensão, 1915, óleo sobre tela, 71.1 x 44.5 cm, MoMA, Nova Iorque

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    segunda-feira, março 17, 2008

    "Alles Ständische und Stehende verdampft, alles Heilige wird entweiht"

    Joseph Paxton (1803-1865), "Palácio de Cristal", 1851. Fotografia de c. 1928

    "All fixed, fast frozen relations, with their train of ancient and venerable prejudices and opinions, are swept away, all new-formed ones become antiquated before they can ossify. All that is solid melts into air, all that is holy is profaned, and man is at last compelled to face with sober senses his real condition of life and his relations with his kind".
    Karl Marx (1818-1883), Friedrich Engels (1820-1895), Manifest der Kommunistischen Partei [Manifesto do Partido Comunista], Londres, 21 de Fevereiro de 1848. Tradução inglesa de Samuel Moore, 1888

    "There are no limits in nature, and neither can there be in a work of art. You would thus obtain the atmosphere that sorrounds the figure, the color that animates it, and the perspective that puts it in its place.
    When I do a portrait, I cannot limit it to the lines of the head since this head belongs to a body; it is in an environment that has an influence on it, it makes part of a whole I cannot suppress.
    (...) Nothing is material in space."
    Medardo Rosso (1858-1928), citado por Edmond Claris, De l'Impression en Sculpture, Paris, Editions de La Nouvelle Revue, 1902. Tradução no catálogo Medardo Rosso, Düsseldorf, Richter Verlag, s.d [2004], pág. 126 (existe no C.D.)

    Pablo Picasso (1881-1973), "El Aficionado Sorgues / El Torero", 1912, óleo sobre tela, 135 x 82 cm, Museu de Arte de Basileia

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    quarta-feira, março 14, 2007

    Espaço, tempo e cinema: hoje, no Ar.Co (21.30h)


    Edwin S. Porter, The Great Train Robbery (3ª parte), Edison Manufacturing Company (1903), The Library of Congress

    Antes de querer ser cubista, ou cubo-futurista, ou pictórica "abstracção" em movimento, o cinema foi pioneiro (e gerador) da manifestação de uma nova relação da civilização industrial com o espaço e o tempo: entre as mais marcantes invenções está a exploração da montagem, capaz de pôr em sequência tempos síncronos, multiplicando, perante o espectador, um momento numa pluralidade de momentos - ou, ao contrário, eliminando, numa elipse, os momentos não necessários à compreensão da narrativa.

    Noi viviamo già nell'assoluto, poiche abbiamo già creata l'eterna velocità onnipresente.
    (Filippo Tommaso Marinetti (1876-1944), Manifesto del Futurismo, "Le Figaro", 20 de Fevereiro de 1909)

    Antes de The Birth of a Nation (1915), de Griffith (1875-1948), do cinema (La Roue (1923), Napoléon (1927)) de Abel Gance (1889-1981) e da teorização de Eisenstein (1898-1948), já a construção da narrativa, especialmente do suspense, pela montagem, no cinema de grande público de Edwin S. Porter (1870-1941), complexificava a relação entre espaço(s) e tempo(s), fragmento e totalidade.

    Os "efeitos especiais", pelo menos desde Méliès (1861-1938), manipulavam e alteravam o visível quotidiano - e todas as novidades fotográficas e cinematográficas, da macrofotografia à "câmara lenta", ofereciam uma visão nova (e mecânica) do mundo.

    By close-ups of the things around us, by focusing on hidden details of familiar objects, by exploring common place milieus under the ingenious guidance of the camera, the film, on the one hand, extends our comprehension of the necessities which rule our lives; on the other hand, it manages to assure us of an immense and unexpected field of action.
    (Walter Benjamin (1892-1940), Das Kunstwerk im Zeitalter Seiner Technischen Reproduzierbarkeit (1936), em tradução inglesa)

    Na aula de hoje, veremos exemplos do cinema de Porter; os planos de composição marcadamente pluridireccional e as manipulações de tempos no Couraçado Potiemkine (1925), de Eisenstein; as utopias futuristas e o modernismo "snob" de L'Inhumaine (1924), de Marcel L'Herbier (1890-1979).

    Para mais informações, vejam-se os "posts" com o marcador "Cinema": com links para vários dos filmes citados (na íntegra ou em excerto).

    Fotograma de L'Inhumaine (1924), de Marcel L'Herbier:

    Noi vogliamo inneggiare all'uomo che tiene il volante, la cui asta ideale attraversa la Terra, lanciata a corsa, essa pure, sul circuito della sua orbita.
    (Filippo Tommaso Marinetti (1876-1944), Manifesto del Futurismo, "Le Figaro", 20 de Fevereiro de 1909)

    Proclamiamo l'assoluta e completa abolizione della linea finita e della statua chiusa. Spalanchiamo la figura e chiudiamo in essa l'ambiente. Proclamiamo che l'ambiente deve far parte del blocco plastico come un mondo a sé e con leggi proprie; che il marciapiede può salire sulla vostra tavola e che la vostra testa può attraversare la strada mentre tra una casa e l'altra la vostra lampada allaccia la sua ragnatela di raggi di gesso.
    Umberto Boccioni (1882-1916), La Scultura Futurista, 11 de Abril de 1912

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