Cruzamentos

quarta-feira, maio 22, 2013

Aleksandr Medvedkin (1900-1989), fotograma de Schastye (Felicidade), U.R.S.S., 1935

Mais uma sessão de cinema no Ar.Co: hoje, a partir das 21 horas, no Salão do nº 18 da Rua de Santiago. Sessão aberta a todos os interessados. Na aula de hoje, o cinema partilhará o tempo com a arquitectura e na próxima aula partilhá-lo-á (provavelmente) com a música.

O que nos continua a interessar é a interrogação dos mecanismos que fazem "arte", bem como a exploração de processos aleatórios, o interesse por métodos e materiais exteriores à tradição das Belas Artes, a atenção às condições psicológicas de criação e recepção da obra, o interesse pelos materiais enquanto matéria. São percursos que temos percorrido orientando-nos por Marcel Duchamp, os vários movimentos Dada, Tatlin e os construtivistas, o De Stijl e os Surrealismos de Breton e Bataille.

Explorem as etiquetas que acompanham o presente "post" para acederem a mais informação no "blog".

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sábado, junho 26, 2010

O Fotográfico como Retrato e "Readymade"

Bruce Nauman, Self-Portrait as a Fountain, uma das Eleven Color Photographs, 1966-67/70

O auto-retrato e a auto-representação. Eu e o mundo. Eu múltiplo. Eu interior: a esquiva, o visível e o invisível. O rosto e o corpo. Objectivo e subjectivo. "Readymade", apresentação, representação, presentificação, objecto e imagem. Original, cópia e simulacro. O fotográfico e o digital. A partir de dia 1 de Julho, no Atelier de Lisboa, entre as 20 e as 22 horas. Até 16 de Julho.

Nos "Google Docs" encontrar-se-ão materiais úteis ao curso, especialmente na pasta Outras Aulas.

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segunda-feira, junho 02, 2008

Cruzamentos multimédia

Jean Vigo, A Propos de Nice, França, 1930, fotograma

CINEMA E MATÉRIA: FILMOGRAFIA (por ordem cronológica)

1. Construtivismo
  • Jacob Protozanov, Aelita, URSS, 1924

  • Dziga Vertov, Человек с киноаппаратом - O Homem da Câmara de Filmar, URSS, 1929

  • László Moholy-Nagy, Lichtspiel: Schwartz-Weiß-Grau, Alemanha, 1930. Os Harvard University Art Museums oferecem, na excelente exposição "online" Extra Ordinary Every Day dedicada à Bauhaus (1919-1933), para além do filme de Moholy-Nagy, um video onde se vê o "Adereço de Luz para um Palco Eléctrico" a funcionar.


  • 2. Duchamp, Dada e Surrealismo
  • Man Ray, Le Retour à la Raison, França, 1923

  • Fernand Léger, Dudley Murphy, Ballet Mécanique, França, 1924

  • René Clair, Entr'Acte, França, 1923

  • Marcel Duchamp, Man Ray, Anémic Cinéma, França, 1926

  • Hans Richter, Vormittagsspuk, Alemanha, 1928

  • Germaine Dulac, La Coquille et le Clergyman, França, 1928

  • Man Ray, L'Étoile de Mer, França, 1928

  • Luis Buñuel, Salvador Dalí, Un Chien Andalou, França, 1929

  • Jean Vigo, A Propos de Nice, França, 1930

  • J.S. Watson Jr., Alec Wilder, Tomatos Another Day, EUA, 1930

  • Joseph Cornell, Lawrence Jordan, Thimble Theater, c.1938-1970


  • Quanto à música, consultem-se as entradas anteriores que dizem respeito ao tema:

  • Hoje: música nos "Cruzamentos" - dedicada aos futuristas e ao Ballet Mécanique de George Antheil.

  • Música, matéria e desordem: discografia (utilizada) - discografia, texto de Lyotard sobre Berio e alguns "links" (2006).

  • Notasomruído: música, matéria e desordem - discografia e links (2007).
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    sexta-feira, maio 16, 2008

    Duchamp, Man Ray, Picabia

    Duchamp Bicycle Wheel Miniature (£55.00 Out of stock)

    Até ao dia 26 de Maio, é possível visitar a exposição "Duchamp, Man Ray, Picabia", na Tate Modern, em Londres (21 de Fevereiro - 26 de Maio de 2008). O excelente "site" da Tate oferece vários materiais para conhecer melhor o assunto: explorem-nos.

    Outra grande exposição é a que o Met de Nova Iorque dedica a Gustave Courbet (1819–1877). O(s) modernismo(s) nas suas origens. De 27 de Fevereiro a 18 de Maio de 2008.

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    quinta-feira, março 27, 2008

    A 4ª dimensão na cultura de massas: Flatland

    Ilustração de Flatland: o narrador, um bidimensional quadrado, representando o unidimensional país das linhas, que visitou em sonhos

    Stranger. Have you felt me enough by this time? Are you not introduced to me yet?

    I. Most illustrious Sir, excuse my awkwardness, which arises not from ignorance of the usages of polite society, but from a little surprise and nervousness, consequent on this somewhat unexpected visit. And I beseech you to reveal my indiscretion to no one, and especially not to my Wife. But before your Lordship enters into further communications, would he deign to satisfy the curiosity of one who would gladly know whence his Visitor came?

    Stranger. From Space, from Space, Sir: whence else?

    I. Pardon me, my Lord, but is not your Lordship already in Space, your Lordship and his humble servant, even at this moment?

    Stranger. Pooh! what do you know of Space? Define Space.

    I. Space, my Lord, is height and breadth indefinitely prolonged. Stranger. Exactly: you see you do not even know what Space is. You think it is of Two Dimensions only; but I have come to announce to you a Third - height, breadth, and length.

    I. Your Lordship is pleased to be merry. We also speak of length and height, or breadth and thickness, thus denoting Two Dimensions by four names.

    Stranger. But I mean not only three names, but Three Dimensions.

    I. Would your Lordship indicate or explain to me in what direction is the Third Dimension, unknown to me?

    Stranger. I came from it. It is up above and down below.

    I. My Lord means seemingly that it is Northward and Southward.

    Stranger. I mean nothing of the kind. I mean a direction in which you cannot look, because you have no eye in your side.

    I. Pardon me, my Lord, a moment's inspection will convince your Lordship that I have a perfect luminary at the juncture of two of my sides.

    Stranger. Yes: but in order to see into Space you ought to have an eye, not on your Perimeter, but on your side, that is, on what you would probably call your inside; but we in Spaceland should call it your side.

    I. An eye in my inside! An eye in my stomach! Your Lordship Jests.

    Stranger. I am in no jesting humour. I tell you that I come from Space, or, since you will not understand what Space means, from the Land of Three Dimensions whence I but lately looked down upon your Plane which you call Space forsooth. From that position of advantage I discerned all that you speak of as solid (by which you mean "enclosed on four sides"), your houses, your churches, your very chests and safes, yes even your insides and stomachs, all lying open and exposed to my view.

    I. Such assertions are easily made, my Lord.

    Stranger. But not easily proved, you mean. But I mean to prove mine. When I descended here, I saw your four Sons, the Pentagons, each in his apartment, and your two Grandsons the Hexagons; I saw your youngest Hexagon remain a while with you and then retire to his room, leaving you and your Wife alone. I saw your Isosceles servants, three in number, in the kitchen at supper, and the little Page in the scullery. Then I came here, and how do you think I came?

    I. Through the roof, I suppose.

    Stranger. Not so. Your roof, as you know very well, has been recently repaired, and has no aperture by which even a Woman could penetrate. I tell you I come from Space. Are you not convinced by what I have told you of your children and household?

    Edwin A. Abbott (1838-1926), Flatland: A Romance of Many Dimensions, London, Seely & Co., 1884

    Encontram-se muitas outras publicações "online" de Flatland. Destaco o fac-simile (em vários formatos) oferecido pelo "Internet Archive" e a tradução portuguesa, a descarregar ("download") a partir de um "site" de partilha de ficheiros (esnips).

    Clicando no título desta entrada ("post"), tem-se acesso a um abrangente artigo, relacionando a 4ª dimensão com as artes, a ciência e a ficção científica. Quarta dimensão, movimentos espiritualistas e obras artísticas são sumarizados por Roann Barris em The Fourth Dimension and Theosophy: A Summary of Key Ideas (em pdf).

    A utilização da tetradimensionalidade pelo Futurismo, em especial por Boccioni, posta em relação com a cultura filosófica (sobretudo Henri Bergson) e científica da época, é explorada em Mark Antliff, "The Fourth Dimension and Futurism: A Politicized Space", The Art Bulletin, December 2000.

    As referências de Marcel Duchamp (1887-1968) à 4ª dimensão têm sido objecto de diversas reflexões. É possível encontrar muitas "online":

  • Jerrold Seigel, The Private Worlds of Marcel Duchamp. Desire, Liberation, and the Self in Modern Culture, Berkeley-Los Angeles-Oxford, University of California Press, 1997, sobretudo pp. 99-106

  • Josep Perelló, "Poincaré i Duchamp: Encontre a la Quarta Dimensió", Artnodes, Juliol de 2005 (em pdf)

  • Ronda Roland Shearer, Marcel Duchamp's Impossible Bed and Other "Not" Readymade Objects: A Possible Route of Influence From Art To Science / Part II

  • Roberto Giunti, "The Bachelor Stripped Bare by Cabri Geometre, Even", na revista Tout-Fait (2007), onde mais informação sobre o tema poderá ser encontrada (por exemplo, buscando "dimension").

  • Uma busca na internet facilmente multiplicará estas referências bibliográficas.

    Para ver mexer o "Grand Verre" (actualizando o seu movimento virtual), visite-se Making Sense of Marcel Duchamp e clique-se sobre a obra, no ano de 1923. Jean Suquet, em "LE GRAND VERRE: Visite Guidée" (Paris, l'Échoppe, 1992, versão "online" na Tout-Fait), guia-nos pela sua leitura do "Grand Verre".

    Sobre a 4ª dimensão em Malevich (1878-1935), outro dos seus mais constantes cultores, veja-se Kazimir Malevitch, Écrits, Paris, Ed. Lebovici, 1986, prefácio, selecção e tradução para francês de A. Nakov (existe no C.D. do Ar.Co com a cota 7 MAL 01).

    Kazimir Malevich (1878-1935), Realismo Pictórico. Rapaz com Mochila - Massas de Cor na Quarta Dimensão, 1915, óleo sobre tela, 71.1 x 44.5 cm, MoMA, Nova Iorque

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    terça-feira, julho 24, 2007

    Peep Show: o filme

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    sexta-feira, maio 18, 2007

    Notasomruído: música, matéria e desordem

    Marcel Duchamp, Erratum Musical, tal como surge na Green Box, 1934

  • A maquinaria sonora de Luigi Russolo (1885-1947), o seu "intonorumori" (1913), preconizado pelo seu manifesto L'Art des Bruits (11 de Março de 1913). No espaço dedicado ao CD Musica Futura - The Art Of Noises (Music & Words From The Italian Futurist Movement 1909-1935).

  • Crepitatore

    Gorgoliatore

    Ronzatore

    Ululatore

  • Luigi Russolo, Risveglio di una Città (1913) - excerto. No espaço dedicado ao CD Musica Futura - The Art Of Noises (Music & Words From The Italian Futurist Movement 1909-1935).


  • No site luigi.russolo.free.fr, é feito o seguinte comentário:

    "Se méfier des faux enregistrements. On retrouve sur plusieurs disques (dont le SUB ROSA CD012-19) un enregistrement intitulé "Risveglio di una Citta" d'une durée de 3'45". Il s'agit d'un pirate réalisé pendant la Biennale de Venise en 1977. La "musique" n'est qu'une démonstration des 6 bruiteurs de la fondation Russolo-Pratella enregistrée à leur insu".

  • Antonio Russolo (1877-1942), Corale e Serenata: gravação de 1921. Na imprescindível UBUWEB.


  • Edgar Varèse (1883-1965), Ionisation (1929-31), na UbuWeb. Com notas de audição em Edgar Varèse, Father of Electronic Music.


  • George Antheil (1900-1959), excerto de Ballet Mécanique (1924). No site comercial CD Baby.


  • Kurt Schwitters (1887-1948), Die Sonata in Urlauten / Die Ursonata (1919-32): zweiter teil: largo. Integralmente na UBUWEB, com possibilidade de ver a partitura. Mais informação no Padiglione d'Arte Contemporanea.


  • Erik Satie (1866-1925), Sonnerie Pour Réveiller le Roi des Singes (1921). Na UBUWEB, em companhia de outras obras do compositor francês.


  • Marcel Duchamp (1887-1968), Erratum Musical (1913 (?)). Toda a obra musical de Duchamp, notas sobre a concepção e execução e entrevistas do artista francês na UBUWEB. Um texto sobre "Erratum" na revista tout-fait. O excerto de Erratum Musical, em audição, encontra-se na emusic.


  • John Cage (1912-1992), Sonata XIII for Prepared Piano (1946-48): Peter Roggenkamp, Wergo.

    Excerto da Sonata XIII (outra interpretação) na Cherry Red: no "pop-up" "275081.mp3" (atenção: não bloquear as "pop-up windows" no "browser")

  • Luciano Berio (1925-2003), Sequenza III (1966): Cathy Berberian, Philips (coleccção Silver Line Classics). Poema de Markus Kutter. Ver o texto de Lyotard sobre esta obra de Berio num post anterior (2006).

    Excerto de Sequenza III (outra interpretação) na Amazon: num "pop-up" (atenção: não bloquear as "pop-up windows" no "browser")

  • Luciano Berio, excerto (início) de A-Ronne (1974): Swingle II, Decca. Poema de Edoardo Sanguineti.


  • John Cage, Song Book - Volume II - Solos for Voice 59-92, New York, London, Frankfurt, Henmar Press inc., [1970]

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    quarta-feira, maio 16, 2007

    Peep show

    Hans Bellmer (1902-1975), La Poupée (detalhe), Paris, Éditions GLM, 1936, gravura (linóleo) sobre papel rosa, 16,7 x 12,8 cm

    Sobre o conjunto de obras de Hans Bellmer sob a designação Die Puppe / La Poupée, ver, sobretudo, The Wandering Libido and the Hysterical Body, de Sue Taylor, para o site do Art Institute of Chicago.

    Muita informação também no Centre Pompidou, em La Révolution Surréaliste (a propósito da exposição de 2002) e nos Dossiers Pédagogiques dedicados ao surrealismo.

    Na "net", a mais completa coleccção de imagens que conheço sobre a multiforme boneca encontra-se em dolls of hans bellmer - não deixar de visitar os "links", para um relacionamento com práticas contemporâneas nem sempre "artísticas" (mais "links" sobre o tema num "blog" português). Outro material fotográfico de Bellmer no International Center of Photography.

    Uma série de "links" relativos a Bellmer em A vocabulary of culture.

    Sobre o conceito freudiano de "estranha familiaridade" (Das Unheilmliche), ver La Révolution Surréaliste e o site La Psychanalyse. O texto integral de The Uncanny (Das Unheilmliche) está disponível em inglês. Várias obras de Sigmund Freud encontram-se em Les Classiques des Sciences Sociales, em tradução francesa.

    O conto (1814) de E. T. A. Hoffmann que está na origem do texto de Freud e entre as referências geradoras da(s) boneca(s) de Bellmer, está traduzido em inglês, como The Sandman.

    Hans Bellmer, fotografia de uma das versões da sua boneca

    A boneca, só com os pés vestidos, jaz no chão e é olhada de cima para baixo, torcida e nua, sexo no foco, olhada pelo homem fotógrafo, em pé, vertical. As outras nádegas deste monstro único, mutante, totalmente instrumentalizado pela sexualidade, são expostas pelo espelho. Espelho terrível que impede a fuga para a sombra e o esquecimento, forçando este corpo-artefacto a exibir-se, outra vez, devolvendo-o ao nosso olhar - e tornando o acto de olhar iniludivelmente visível.


    Marcel Duchamp, Etant Donnés (detalhe), 1946-1966, Philadelphia Museum of Art

    A mulher nua, indecisa entre a morte e a vida (ergue o braço), o sórdido e o heróico (a luz no braço erguido), deita-se, ou foi despejada, numa paisagem bucólica, retalhada pela visão, por natureza fragmentária, que se centra no seu sexo. Espreitamos pela fissura da porta e vemos um exterior. Espreitar a mulher, espreitar para dentro, ver através de (como na perspectiva): das viscerais noivas tetradimensionais de 1912 a este corpo no chão. Sexualidade progressivamente mais óbvia, mais crua, mais sórdida.


    Alfred Hitchcock, Frenzy (fotograma), 1972

    A mulher nua foi despejada no sujíssimo Tamisa, que o discurso da ordem promete limpar. A água não é uma cascata ao fundo. Da indizível violação de Blackmail (1929), elidida por foras-de-campo vários, para a mulher violada, nua, morta. Sexualidade progressivamente mais óbvia, mais crua, mais sórdida.


    Alfred Hitchcock, Psycho (fotograma), 1960. Ver pormenor* abaixo

    A parede revela Norman e a sua relação com Marion: ele é um predador e o contentor habitado pelo fantasma da Mãe, como um mocho empalhado; Marion é a vítima da predação e um animal a retalhar pelo taxidermista, este recepcionista involuntário do vestíbulo entre a vida e a morte - e é, Marion, o objecto do desejo, a ser violado na sua privacidade sem conhecimento, como as mulheres nuas que homens devassam nos quadros. A pintura, a Arte, esconde e revela, "sublima", mas sem conseguir apagar as marcas de uma regressão às pulsões do inconsciente.


    Alfred Hitchcock, Psycho (fotograma), 1960

    O quadro é tirado da parede,


    Alessandro Allori, Susana e os Velhos, 1561, óleo sobre tela, 202 x 117 cm, Musée Magnin, Dijon

    uma qualquer (não esta, de Alessandro Allori) "Susana" atormentada pelos seus "velhos" (entre a violência e o negócio), a ser redimida pela virtude absoluta,


    Alfred Hitchcock, Psycho (fotograma), 1960

    O quadro ausente revela, agora sem transposição, tudo o que fora, até aí, recalcado. Buraco na parede, buraco na porta.


    Alfred Hitchcock, Psycho (fotograma), 1960

    Para espreitar


    Alfred Hitchcock, Psycho (fotograma), 1960

    o inconfessável,


    Alfred Hitchcock, Psycho (fotograma - pormenor*), 1960

    transposto, pela arte, para a esfera da ordem, do "alto", da moral. Nudez e pudor. Desejo e negócio.


    Alfred Hitchcock, Psycho (fotograma), 1960

    O buraco da parede já não transpõe: anuncia o buraco terrível do ralo da banheira que irá escoar a vida de Marion para o vazio, onde o nosso olhar não a pode mais seguir. Contracampo ontológico do buraco na parede, através do (como na perspectiva) qual o olho via: vazio absoluto, sem luz, sem visão, sem existência. Buraco na horizontalidade do fundo da banheira (conduzindo a um fundo mais fundo), visto do alto vertical da câmara de filmar.


    Alfred Hitchcock, Psycho (fotograma), 1960

    O buraco devolve-nos o olho: mas não o olhar. Olho morto.


    Alfred Hitchcock, Psycho (fotograma), 1960

    O olho vertical substitui o ralo horizontal, assim como o eixo vertical de visão é substituído pelo eixo horizontal, junto ao chão - baixo, "baixa" matéria, dejecto, lixo a limpar pelo obsessivo e cauteloso Norman. A câmara não pode senão afastar-se. Não há caminho redentor. O regresso do automóvel de Marion, no último plano do filme, não recupera nada, não repõe nada: é o regresso de um cadáver. Lixo. O lixo do que fora uma mulher em busca de redenção, do que fora juventude, do que fora riqueza (e crime: o dinheiro roubado por Marion).


    Sobre o conjunto da obra de Marcel Duchamp, veja-se o divertido e informativo site Making Sense of Marcel Duchamp. Sobre Étant Donnés, consultem-se os artigos da tout-fait, Case Open and/or Unsolved: Étant Donnés, the Black Dahlia Murder, and Marcel Duchamp’s Life of Crime e Marcel Duchamp - Étant donnés: The Deconstructed Painting e veja-se uma reconstituição animada da obra no "site" Freshwidow. Sobre o Psycho, de Hitchcock, poderá recuperar-se um comentário meu no "blog" do curso A Arte Moderna.

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    segunda-feira, abril 23, 2007

    Buddha of the bathroom

    Edward Weston (1886-1958), Excusado, 1925, impressão em platina, 24.2 x 18.3 cm.

    "Form follows function." Who said it I don't know but the writer spoke well! I have been photographing our toilet, that glossy receptacle of extraordinary beauty. It might be suspicioned that I am in a cynical mood to approach such subject matter when I might be doing beautiful women or “God’s out-of doors”, — or even considered that my mind holds lecherous images arising from restraint of appetite. But, no! My excitement was absolute aesthetic response to form. For long I have considered photographing this useful and elegant accessory to modern hygienic life, but not until I actually contemplated its image on my ground glass did I realize the possibilities before me. I was thrilled! — here was every sensuous curve of the "human form divine" but minus imperfection. Never did the Greeks reach a more significant consumation to their culture, and it somehow reminded me, in the glory of its chaste convulsions and in its swelling, sweeping, forward movement of finely progressing contours, of the Victory of Samothrace.
    Edward Weston, The Daybooks of Edward Weston, vol. 1, entrada para 21 de Outubro de 1925. [Na ausência dos diários de Weston, reconstituí esta passagem através de várias citações fragmentárias: na In Focus de Dezembro de 2005, na Bartleby e no arquivo da George Eastman House. É uma das citações (em versão abreviada) que termina o livro de Susan Sontag, On Photography (1973), com edição portuguesa da D. Quixote (1986). Os "links" do texto pretendem ampliar a sua compreensão]


    Louise Norton (1890-1989), "Buddha of the Bathroom", The Blind Man, nº2, New York, Maio de 1917. A sexualidade, na Fountain e no conjunto da obra de Duchamp, é discutida no "link" do título desta entrada e, em linguagem e estilo jornalísticos, no Independent

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    quarta-feira, março 08, 2006

    "No jury, no prizes"

    Publicidade de uma exposição nova-iorquina a inaugurar amanhã.

    Um Marcel Duchamp a habitar Nova Iorque (a Grande Guerra começara em 1914 e terminaria em 1918), celebrizado pelo "Armory Show" de 1913, foi um dos fundadores da Society of Independent Artists, émulo americano da francesa Societé des Artistes Indépendants (a mesma que levantara obstáculos à exposição do Nu Descendant un Escalier, em Março de 1912), fundada em 1884.

    Quando a opinião pública do presente se enerva com a arte contemporânea, considerando arrogante e ditatorial a possibilidade de propor qualquer objecto, imagem ou acção como "Arte", esquece ou ignora que isso acontece pelos motivos contrários aos que geram a irritação: hoje em dia, nenhuma entidade define o que é ou não a tal "Arte". A oitocentista Societé des Artistes surgiu da situação oposta: era a Academia que dizia quem era artista e o que era "Arte", e fazia-o periodicamente, aceitando ou recusando as obras que estariam expostas no anual "Salon". Um júri fazia a escolha. A Societé des Artistes quis furar essa censura prévia: qualquer sócio podia expor (em quantidade limitada, no entanto) aquilo que quisesse. O público decidiria.

    A Society americana pretendeu fazer o mesmo: quem quisesse tornar-se sócio pagava 6 dólares e ganhava o direito de expor (com limitação de número) o que quisesse. Daqui, a queixa do Sr. Richard Mutt (ou de alguém tomando a defesa da sua causa), em 1917, na revista The Blind Man: "They say any artist who pays six dollars may exhibit. Mr. Richard Mutt sent in a fountain. Without discussion, this object disappeared and was never exhibited".

    O Sr. Richard Mutt tinha adquirido um urinol, provavelmente da empresa J. L. Mott Ironworks, e enviara-o, para exposição, à Society of Independent Artists, de que era sócio. A peça foi excluída por decisão maioritária dos directores da sociedade. Marcel Duchamp demitir-se-ia. Rebentava a polémica.

    Mutt e Duchamp parecem ter sido, no entanto, a mesma pessoa. Mas foi Marcel que escreveu à sua irmã Suzanne: "Uma das minhas amigas, sob um pseudónimo masculino, Richard Mutt, enviou um urinol como escultura". Mesmo a identidade sexual é posta em causa: o senhor ou a senhora Mutt? Em 1920 surgirá Rrose Sèlavy, outro heterónimo de Marcel - uma senhora que o amigo Man Ray fotografará para o rótulo de um frasco de perfume. Arte, escultura, instituições, processos, execução, originalidade, autoria: tudo claramente em questão.

    O que sabemos daquela que é, hoje, uma das mais influentes peças da cultura artística do século XX é muito pouco. Sabemos que não é o primeiro "ready-made". A "Roda de Bicicleta" é de 1913. "Ready-made", uma arte "já pronta", um objecto pré-existente a que é alterado o estatuto ao ser proposto como obra de arte. A designação também é um "ready-made": vem da venda de roupa por catálogo, roupa "pronto-a-vestir", como dizemos hoje, por influência francesa ("prêt-à-porter"), oposto da roupa "tailor made", feita, à medida, por um alfaiate. A Fountain desapareceu: dela só restam fotografias - e a mais famosa, a de Alfred Stieglitz, publicada em The Blind Man, consiste numa encenação que não sabemos a quem atribuir. Duchamp, sabemo-lo através de outra fotografia, tinha o urinol pendurado no vão de uma das portas do seu estúdio nova-iorquino da Rua 67. Na Fountain até temos sorte: já a "Roda de Bicicleta" é, sobretudo, conhecida pela fotografia de uma terceira versão de 1951 - as diferenças entre versões são grandes e têm vindo a gerar relevantes discussões.

    A história de Fountain é conhecida, sobretudo, devido ao trabalho de investigação histórica de William Camfield, de quem se poderá consultar, na biblioteca ("CD", isto é, "Centro de Documentação") do Ar.Co, "Marcel Duchamp's Fountain: Aesthetic Object, Icon, or Anti-Art?" in Thierry de Duve (org.), The Definitively Unfinished Marcel Duchamp, Cambridge-London, MIT Press, s.d. [1991].

    Thierry de Duve faz um bom resumo dela em Voici, 100 Ans d'Art Contemporain, Paris, Ludion-Flammarion, s.d., pp. 28-29, obra também existente na biblioteca do Ar.Co.

    "Online" existem excelentes recursos:
    Especificamente sobre Fountain poder-se-à consultar o artigo respectivo em Unmaking the Museum: Marcel Duchamp's Readymades in Context, de Kristina Seekamp, e, no Art Science Research Laboratory, o muito esclarecedor texto de Michael Betacourt, The Richard Mutt Case: Looking for Marcel Duchamp's Fountain.

    De um ponto de vista mais geral, o site Making Sense of Marcel Duchamp é uma viagem divertida e séria pela obra de Marcel Duchamp.
    Existe uma Marcel Duchamp World Community, com muita informação e que inclui uma excelente revista cibernética, inteiramente dedicada ao tema, a Tout-Fait.
    Principalmente para os francófonos, a z u m b a w e b d e s i g n dedica um site a Marcel Duchamp en Français sur le Web.

    A Columbia University (Nova Iorque) disponibiliza alguns excertos de textos e conversas de Duchamp.

    Os "links" do texto deste post contêm mais informação: explorem-nos. Em breve, colocarei novos "links" no blog, onde se deverá, também, buscar mais Duchamp.

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